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Descuidos de Deus

Martha Medeiros

Onde estava Deus quando a adolescente que foi acampar com o namorado foi rendida e assassinada por delinquentes? Onde estava Deus quando, anos atrás, uma mãe americana afogou os cinco filhos numa banheira? Quando chove e os barrancos despencam morro abaixo, onde ele está? Na hora em que acontecem os acidentes de trânsito ele nunca está por perto. Quando alguns políticos decidem roubar dinheiro público, ele não se mete. Quando um câncer começa a se formar no corpo da gente, ele faz que não vê. Descuidado, esse Deus.

São esses argumentos que justificam o ateísmo. Se Deus pode tudo, sabe tudo, vê tudo, então bastava ele querer transformar essa zorra que virou o mundo num lugar mais habitável. Tudo bem que todos têm que morrer um dia, mas precisa ser afogado pela própria mãe? Precisa passar antes por cinco dias de total terror? Não dá pra ser depois dos 90 anos, dormindo na própria cama?

Os advogados de defesa de Deus argumentam que ele escreve certo por linhas tortas, que a fé conforta e salva e que de tudo se tira um ensinamento. E tem mais: quem disse que ele não está por perto na hora de um acidente de trânsito? Lembra quando seu carro tirou um fino daquela jamanta na freeway? Se ele não tivesse ali, você iria ver o que é bom.

Deus não é um vigia insone. Não é um guarda-costas. Deus não é num mesmo uma pessoa. É uma energia cósmica, um ponto de referência, um álibi, uma fantasia, uma força a quem se agarrar na hora do medo, uma benção a quem agradecer na hora da vitória. E se é descuidado, é pra que a gente acredite nele. Se fosse perfeito, não teria a menor credibilidade.

Entregar a Deus é tudo o que não devemos fazer. Se a violência só cresce, é nossa obrigação exigir medidas drásticas e denunciar qualquer atitude suspeita. Se há tanta criança passando fome embaixo do nosso nariz, é nossa missão ajudar a alimentá-las. E se as bem alimentadas não têm a menor noção de civilidade, é nosso o dever de educa-las. Os barracos continuarão caindo, o número de desempregados continuará aumentando, para cada corrupto haverá um corruptível e pessoas sofrerão ao nosso lado sem que a gente faça nada para aliviar sua dor. O descuido tem sido de todos nós.

Cada vez mais acredito que somos a imagem e semelhança dele, que também erra.


Domingo, 23 de novembro de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.